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Cais do Valongo pode se tornar Patrimônio da Humanidade Cais do Valongo pode se tornar Patrimônio da Humanidade
Porta de entrada no Brasil de milhões de africanos escravizados, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro (RJ), teve sua candidatura a Patrimônio... Cais do Valongo pode se tornar Patrimônio da Humanidade
Porta de entrada no Brasil de milhões de africanos escravizados, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro (RJ), teve sua candidatura a Patrimônio da Humanidade aceita pelo Centro de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O ministro da Cultura, Marcelo Calero, participou do coquetel de recepção ao representante da Unesco, o arquiteto e arqueólogo argentino Daniel Schávelzon, realizado na noite desta segunda-feira (19), no Palácio da Cidade. Também estiveram presentes os presidentes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogéa, da Fundação Cultural Palmares, Erivaldo Oliveira, e do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), Washington Fajardo.
O dossiê da candidatura, elaborado pelo Iphan e pela Prefeitura do Rio de Janeiro, foi aceito em março deste ano. O material servirá como base para o trabalho da equipe de Daniel Schávelzon, que visitará a região portuária e o Cais do Valongo. O trabalho técnico prosseguirá com a participação da comunidade e do Comitê Consultivo da Candidatura, composto por várias instituições governamentais e da sociedade civil, especialmente as representativas da preservação e valorização da herança africana.
O ministro Marcelo Calero agradeceu a presença do representante da Unesco e reforçou a importância da realização do trabalho conjunto em prol do tombamento do Cais do Valongo. “No Brasil, ainda estamos aprendendo a conciliar as esferas do governo para que trabalhem em favor de um projeto comum. O fato é que temos aprendido e conseguido fazer com que isso se torne uma realidade mais presente. Da minha parte, cabe dizer do comprometimento firme do governo federal em relação a essa candidatura e tudo que ela representa para a história do Brasil e das pessoas que chegaram a essas terras de uma maneira tão cruel e vil, e que, ao fim e ao cabo, são a base da constituição da nossa cidadania e da nossa nacionalidade”, ressaltou.
O presidente do IRPH, Washington Fajardo, falou sobre a ressignificação do Cais do Valongo. “Temos centros históricos que contêm o magnífico patrimônio brasileiro e, no caso do Rio de Janeiro, uma cidade que sempre foi dedicada à vida do porto, das chegadas e das partidas, há também outra história que procuramos esquecer, que é a história da escravidão. Desde a revelação do Cais do Valongo, em 2011, estamos arduamente dedicados a fazer com que aquelas pedras apontem para um novo caminho de humanidade, um desafio de reconhecimento da contribuição das pessoas afrodescendentes. O Cais do Valongo é um sítio de dor, mas também é um sítio de celebração de resistência dessa cultura. Trabalhamos muito por essa candidatura e estamos felizes e ansiosos com a chegada do representante da Unesco”, afirmou.
O presidente do IRPH, Washington Fajardo, falou sobre a ressignificação do Cais do Valongo. “Temos centros históricos que contêm o magnífico patrimônio brasileiro e, no caso do Rio de Janeiro, uma cidade que sempre foi dedicada à vida do porto, das chegadas e das partidas, há também outra história que procuramos esquecer, que é a história da escravidão. Desde a revelação do Cais do Valongo, em 2011, estamos arduamente dedicados a fazer com que aquelas pedras apontem para um novo caminho de humanidade, um desafio de reconhecimento da contribuição das pessoas afrodescendentes. O Cais do Valongo é um sítio de dor, mas também é um sítio de celebração de resistência dessa cultura. Trabalhamos muito por essa candidatura e estamos felizes e ansiosos com a chegada do representante da Unesco”, afirmou.
Porta de entrada de africanos escravizados
O Cais do Valongo foi a principal porta de entrada de africanos escravizados no Brasil (Foto: João Paulo Engelbrecht/Iphan)

O Brasil recebeu cerca de quatro milhões de escravos nos mais de três séculos de duração do regime escravagista, 40% de todos os africanos que chegaram vivos nas Américas, entre os séculos XVI e XIX. Destes, aproximadamente 60% entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que aproximadamente 1 milhão pelo Cais do Valongo. A partir de 1774, por determinação do marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil, o desembarque de escravos no Rio foi integralmente concentrado na região da Praia do Valongo, onde se instalou o mercado de escravos que, além das casas de comércio, incluía um cemitério e um lazareto (espécie de hospital de quarentena).

O objetivo era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Após a chegada, eles eram destinados às plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam no Rio de Janeiro geralmente eram utilizados em trabalhos domésticos ou nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico escravagista.
Em 1811, com o incremento do tráfico e o fluxo de outras mercadorias, foram feitas obras de infraestrutura, incluindo o calçamento de pedra de um trecho da Praia do Valongo, que constitui o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo.
O local foi desativado como porto de desembarque de escravos em 1831, quando o tráfico transatlântico foi proibido por pressão da Inglaterra – norma solenemente ignorada, que recebeu a denominação irônica de lei para inglês ver. Doze anos depois, em 1843, o Cais do Valongo foi reformado para receber a princesa das Duas Sicílias e de Bourbon-Anjou, Teresa Cristina, esposa do imperador Dom Pedro II, recebendo o nome de Cais da Imperatriz.
Com a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, pôs-se fim oficialmente ao tráfico para o Brasil, embora a última remessa conhecida date de 1872 e a escravidão tenha persistido até a Abolição, em 1888.
Em 1911, com as reformas urbanísticas da cidade, o Cais da Imperatriz foi aterrado. No entanto, durante as obras do Porto Maravilha, com as escavações realizadas no local, em 2011, foram encontrados milhares de objetos, como parte de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias, esculpida em antimônio, com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas na tampa.
Em 2012, a prefeitura do Rio de janeiro acatou a sugestão das Organizações dos Movimentos Negros e, em julho do mesmo ano, transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.
Em 20 de novembro de 2013, Dia da Consciência Negra, o Cais do Valongo foi alçado a patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro, por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Representantes da Unesco também consideraram o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos. O evento reforçou ainda mais a intenção da cidade de lançar a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade.
O dossiê de candidatura, elaborado ao longo de um ano de trabalho coordenado pelo antropólogo Milton Guran, resgata a história trágica e cruel do tráfico negreiro e analisa com detalhes a importância histórica e o simbolismo do sítio arqueológico para todos os brasileiros, em especial os afrodescendentes.
O Sítio Arqueológico do Cais do Valongo não só representa o principal cais de desembarque de africanos escravizados em todas as Américas, como é o único que se preservou materialmente. Pela magnitude do que representa, coloca-se como o mais destacado vestígio do tráfico negreiro no continente americano.
Alessandra de Paula
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

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