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Samba-enredo: a história cantada em versos na avenida Samba-enredo: a história cantada em versos na avenida
Quem não lembra algum verso de samba-enredo? Alguns clássicos ficaram na memória, como “Explode coração, na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro, contagiando... Samba-enredo: a história cantada em versos na avenida
Quem não lembra algum verso de samba-enredo? Alguns clássicos ficaram na memória, como “Explode coração, na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro, contagiando e sacudindo essa cidade!”. Ou a pérola do Império Serrano (1964): “Vejam essa maravilha de cenário, é um episódio relicário…”.
Até chegar ao que conhecemos hoje, o samba-enredo passou por várias mudanças. O jornalista Marcelo de Mello, autor do livro O Enredo do Meu Samba – A História de 15 sambas-enredo imortais, acompanha o carnaval carioca desde a década de 70. Segundo ele, a partir desse período, o samba-enredo torna-se um produto rentável, quando começa a ser gravado e vendido em LPs.
“As pessoas davam de presente um LP do Roberto Carlos e outro de samba-enredo. Quando o desfile passa ser televisionado, aumenta a popularidade, por outro lado, outros aspectos começam a ganhar relevância. Cada vez mais o visual das escolas se torna importante, um pouco em detrimento do samba-enredo”, explica o jornalista.
Mas, de acordo com Mello, mesmo com as mudanças, o samba-enredo continua a ter relevância. “Na década de 70, quem era o concorrente do samba-enredo? Hoje tem axé, outras músicas. Mas acho sim que é um gênero importante, que tem nobreza e história. Quando a escola vem com um samba ruim, não tem como o desfile ser bom. É uma música feita para ser cantada por uma massa de pessoas que não é profissional, por isso tem que ser confortável e contagiante. Fazer samba-enredo não é para qualquer um, é uma obra de encomenda caracterizada pela funcionalidade”, frisa.
Walter Honorato sabe como ninguém que fazer samba-enredo não é fácil. Ele é compositor do Salgueiro e jornalista, atuando na área de eventos da Fundação Casa de Rui Barbosa.
“Eu costumo dizer que sou compositor a vida toda. A profissão de jornalista me ajudou muito. Eu uso a técnica do lead para fazer o samba, usando as palavras-chave o que, quem, onde, quando e por que. Faço muita pesquisa, tento sair do lugar comum, com informações que atendam o que o carnavalesco está pedindo, mas trazendo coisas novas”, explica o compositor, que tem no currículo um samba-enredo campeão na avenida: Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube lá no Ceará, da Imperatriz Leopoldinense (1995).
De acordo com Honorato, os compositores pegam a sinopse com a ideia da música e, depois de um mês, voltam com o samba gravado. A partir daí, após várias eliminatórias, é escolhida a canção que vai arrebatar – ou não – os corações na avenida.
“Tem escola que forma uma comissão para escolher o samba, em outras quem escolhe é o presidente e o carnavalesco. Trabalho com carnaval o ano todo. Julgo sambas-enredo em outras cidades fora do Rio, como Porto Alegre, Vitória… Eu gosto muito. A escola de samba não é só alegoria, bateria… O que deu notoriedade foi o samba-enredo. Existe um fator social muito importante, muitas pessoas aprendem história ouvindo samba-enredo. Ele é o fio condutor do grande espetáculo”, completa.
O samba-enredo na avenida
“A década de 30 foi a primeira com desfiles oficiais. Cantavam na avenida mais de um samba, que não eram feitos especificamente para o desfile. A primeira parte da música era fixa e improvisavam a segunda parte na hora. Na década de 40, saiu um regulamento dizendo que era proibido improvisar versos, e isso é decisivo para o samba-enredo, porque aí ele já chega pronto na avenida”, conta a pesquisadora Rachel Valença, do Museu da Imagem e do Som (MIS).
Rachel revela ainda curiosidades sobre a história do samba no Brasil no período da Segunda Guerra Mundial. “Na primeira parte da década de 40, os desfiles foram muito irregulares. Em alguns momentos, foram suspensos ou nem todas as escolas puderam participar, porque havia racionamento de comida e materiais. Só na segunda metade da década eles voltaram a acontecer. O interessante é que, em 1946, no primeiro carnaval após os tratados de paz, todas as escolas fizeram um acordo de que fariam um enredo sobre o fim da guerra”, explica.
De acordo com a pesquisadora, o primeiro samba-enredo foi Exaltação a Tiradentes, do Império Serrano, feito em 1949, mas gravado em 1955. A década de 50 é marcada pelos sambas chamados lençóis, grandes composições que contavam a “história oficial”, aquela já registrada em livros didáticos.
“Já na década de 60 houve uma revolução, com a chegada de Fernando Pamplona ao Salgueiro. Ele era acadêmico e se apaixonou pelos desfiles da vermelho e branco. Pamplona vai ser carnavalesco sem ganhar nada, e começa a desenvolver enredos sobre a história dos negros. Houve uma reação dos salgueirenses, eles não queriam usar fantasias de palha, por exemplo, queriam se vestir como príncipes. O negro buscava reconhecimento na sociedade. Vem o Pamplona e fala de Zumbi do Palmares. Houve essa virada, o negro começa a falar de si próprio. Na década de 70, surge outro padrão, o samba curtinho com refrão forte, já fruto do momento que o samba começa a ser gravado”, explica a pesquisadora, que está terminando a segunda edição do livro Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, a ser lançado em 2017, quando a escola comemora 70 anos de existência.
Alessandra de Paula
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

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